quarta-feira, abril 12, 2017

O uivo da górgona - parte 37


37
A rua estava repleta de zumbis enlouquecidos. Pareciam tomados por uma dança louca, de morte, sangue e fezes. Sujos e maltrapilhos, eles pulavam e urravam. Umas dez pessoas haviam se agrupado ao redor do portão e o forçavam. Outros tentavam subir, mas se feriam no ouriço metálico que, felizmente, conseguia repeli-los.
- Isso não vai aguentar muito tempo. – sentenciou Jonas. Talvez eles entrem no quintal e, se entrarem, vamos rezar para que as grades nas janelas e portas aguentem.
Edgar coçou o queixo:
- É bom que um de nós fique de guarda. Se eles conseguirem passar pelo portão, é bom que estejamos preparados.
- E se o uivo voltar?
- Vamos torcer para que isso não aconteça.

Alan foi o primeiro a ficar de vigia. Por via das dúvidas, usara no ouvido os tampões que sempre trazia consigo. Tinha suas dúvidas de que isso o protegeria do uivo, mas talvez lhe desse tempo de chegar até o quarto com isolamento antes que ele fosse tomado pela Górgona.
(Um pensamento terrível o tomou: e se os amigos se recusassem a abrir a porta para ele, temendo que ele já tivesse se transformado?)
Assim, suas duras horas de vigília passaram, entre o medo de que as pessoas enlouquecidas lá de fora derrubassem o portão e o pavor de que o uivo voltasse a soar.
Pouco mais de uma hora de vigília, ele começou a ser dominado pelo sono. As imagens de pesadelo vinham e iam como relâmpagos em meio ao topor.

- Seu imprestável! – gritou a figura enorme e ameaçadora.
Em seu sonho, Alan se encolheu, mas a figura continuou vindo em sua direção, os punhos fechados, indo e voltando, ensaiando um golpe.
- Seu imprestável! Você me envergonha!
No meio, entre o sonho e a realidade, os gritos do homem se misturavam ao urro da multidão forçando o portão.
Alan podia sentir o bafo intenso de cerveja.
Uma terceira figura estava ali, escondida pelas sombras. Só era possível ver sua mão feminina, puxando o pai:
- Por favor, esqueça isso. Ele é seu filho!
- Eu não tenho filho! Esse imprestável nunca foi meu filho!
Então, a mão se aproximou e tocou em seu ombro. Alan estremeceu, tomado por calafrios e abriu os olhos.
- Está tudo bem? – perguntou Edgar, sacudindo-o.
                Alan abriu os olhos, aturdido.
- Tudo bem? – insistiu Edgar.
- Sim.
- E as coisas lá fora?
- Acalmaram, mas duvido que o portão aguente mais uma noite.
Edgar coçou o queixo:
- Vamos precisar procurar outro local. O uivo não soou?
- Acho que isso só ocorre uma vez por noite.
No dia seguinte, o grupo se preparou para rodar pela cidade. Precisavam de gasolina e de um local mais seguro. Levaram poucas coisas: algumas roupas, comida e as armas improvisadas que haviam conseguido na caixa de ferramentas.
Dessa vez a cidade parecia ainda mais destruída que no dia anterior: havia sacos de lixo rasgados e espalhados pelas ruas, seu conteúdo atraindo moscas e urubus. Viram um ou outro cachorro, que se afastava rápido ao ouvir o som do carro.
Já tinham rodado mais de meia-hora quando finalmente avistaram um posto de gasolina. 
Edgar parou o carro e começou a encher o tanque, enquanto os outros vigiavam.

Estavam todos tão preocupados com os zumbis que ninguém reparou na pequena Pimpinela. 

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