domingo, dezembro 10, 2017

Gandhi e a doutrina da não-violência

Gandhi foi uma das mais importantes figuras históricas da Índia. Ele conseguiu tornar seu país independente da Inglaterra sem guerra ou violência e até hoje é visto como um homem santo, especialmente nas pequenas vilas indianas.  Os indianos tinham tão grande respeito por ele que o chamavam de Mahatma (Grande alma).
Essa grande alma nasceu no distrito de Gujarat, um local remoto e pouco visitado da Índia. O pai de Gandhi era primeiro ministro de Porbander. A mãe era devota de uma pequena seita conhecida como pranamis, uma mistura de hinduísmo com islamismo. Em seus templos, o Alcorão e os livros sagrados indianos eram igualmente venerados. Entre os preceitos desse culto estava o respeito por todas as crenças e a simplicidade no modo de vida, o que implicava em um vegetarianismo rígido, a repulsa do álcool e ao fumo e jejuns periódicos. Todos esses preceitos teriam grande influência sobre Gandhi.
Mas quem visse o pequeno Mohandas Karamchand Gandhi quando criança dificilmente desconfiaria de sua importância futura. Ele era extremamente tímido e aluno medíocre. Parecia tão burro que a única saída encontrada pela família foi enviá-lo para Londres para freqüentar o Inner Temple, uma escola tão fácil que até o mais estúpido dos alunos conseguia aprovação.
Gandhi, como a maioria dos indianos da época, sentia um misto de ressentimento e admiração pelos colonizadores ingleses, especialmente por causa da estatura elevada e vigor físico. Assim que chegou a Londres, Gandhi  se empenhou em tornar-se um perfeito inglês. Comprou um trraje ocidental, uma cartola e uma bengala. Tomou lições de dicção, francês e violino. Só não imitou os ocidentais no hábito de comer carne, uma promessa que havia feito à mãe antes de sair de sua terra natal.
Em sua estada em Londres, ele descobriu um restaurante vegetariano onde teve contato com livros que o marcariam para o resto da vida. Um deles foi Pelo Vegetarianismo, de H. S. Salt. A partir da leitura desse livro ele passou a atuar em sociedades vegetarianas, mas era tão tímido que tinha de pedir a outras pessoas que lessem seus comunicados.
Surpreendentemente, um dos livros que ele redescobriu na sua fase inglesa foi justamente um clássico indiano, o Bagavad Gita. Gandhi ficou tão fascinado que tomou esse livro como guia pelo resto da vida. Para ele, o livro devia ser visto não como uma verdade histórica, mas como uma alegoria. Assim, Krishna não estaria estimulando Arjuna a cumprir seus deveres militares, mas  ensinando à humanidade o valor do não-engajamento e a necessidade de agir sem desejar os frutos da ação.
Na época, ele leu também textos budistas, islâmicos e cristão e tentou encontrar algo em comum entre essas crenças. Achou o que queria na idéia de renúncia.
Outros autores que o influenciaram foram Tosltoi, com O reino dos céus está em você (livro no qual a doutrina da ação sem violência) e John Ruskin, com Unto this Last. Este último livro mostrou a Gandhi que a violência era gerada por uma ordem social desigual, o que o levaria a lutar contra o sistema de castas na Índia.
Em toda a sua história de lutas, Gandhi sempre se preocupara com a qualidade de vida das pessoas. Achava que as pessoas só seriam felizes se fosse livres para viver de acordo com suas escolhas. Mas essa liberdade também implicava o respeito à liberdade e dignidade dos demais.
Em 1891 ele estava formado em direito e rumou para casa e se deparou com o primeiro caso que lhe mostraria a realidade cruel do imperialismo. Enquanto estava na Inglaterra ele conhecera um homem chamado Charles Ollivant, um tipo educado e amistoso, que trabalhava como funcionário público na Índia. Gandhi precisou procurá-lo para resolver uma questão pessoal, mas foi recebido friamente  e acabou sendo expulso da propriedade. Gandhi protestou por escrito por aquela ofensa à sua dignidade. Ollivant respondeu que um indiano não tinha uma dignidade que pudesse ser resguardada.
 Essa experiência lhe mostrou como o relacionamento entre as pessoas pode ser corrompido quando uma domina a outra, uma realidade que ficaria mais clara quando ele viajou para a África do Sul para trabalhar como advogado. Para representar seu cliente, ele precisaria viajar de trem até Pretória. Assim, comprou uma passagem de primeira classe e esperou a viagem. Nisso um inglês entrou na cabine, viu Gandhi e voltou com um funcionário da ferrovia, que ordenou a Gandhi para viajar o vagão de bagagens. Isso se repetiu durante toda a viagem. Gandhi chegou até mesmo a ser espancado por um homem, só por ser indiano.
A luta contra o tratamento dado aos indianos na África seria a primeira bandeira defendida por Gandhi. Além de não poderem viajar na primeira classe, os indianos não tinham direito a voto e eram obrigados a se registrarem. Um policial poderia entrar numa casa indiana e revistar todos para ver se tinham o registro, o que era considerado uma ofensa, especialmente por causa das mulheres. Além disso, era cobrado um imposto abusivo de cada trabalhador indiano. Para piorar, uma lei declarava sem efeito os casamentos mulçumanos, parse e hindu.
Usando inicialmente de meios legais, Gandhi conseguiu algumas vitórias, como, por exemplo, uma indenização a um indiano que fora expulso de um trem. Mas logo ficou claro que só isso não seria o suficiente. Assim, ele empregou pela primeira vez a satyagraha, força-verdade, uma espécie de resistência civil pacífica que pretendia não derrotar o inimigo, mas trazê-los para sua causa.
Os registros, por exemplo, foram boicotados. Os indianos eram orientados a não molestarem ou insultarem qualquer um que quisesse se registrar. Mesmo assim, o registro foi um fiasco. Os indianos também foram orientados a saírem para a rua e negociarem sem licença, o que provocaria suas prisões.  As mulheres logo entraram nos protestos. Logos as prisões estavam lotadas de manifestantes, provocando grandes problemas e constrangimentos para as autoridades.
A polícia também usou de violência, atirando contra trabalhadores, o que colocou a opinião pública contra o governo. Até o Vice-rei da Índia protestou contra a situação na África e as autoridades foram obrigadas a libertar Gandhi e negociar. Os indianos tiveram praticamente todas as suas exigências atendidas.
Quando Gandhi voltou a Índia, foi recebido como herói nacional. Ele era visto como o homem capaz de devolver a liberdade ao país. Mas ele deixou claro que não queria apenas a independência da Índia: queria também uma situação melhor para o povo e o fim da sociedade de castas. Esse posicionamento foi demonstrado numa reunião do congresso nacional. Os párias eram proibidos de entrar, o que provocou um problema, já que eles eram encarregados de limpar os banheiros. Gandhi não pensou duas vezes: pegou a material e foi limpar o vaso que pretendia usar. Além disso, ele abandonou os trajes ocidentais e começou a usar roupa feita por ele mesmo. Ele percebeu que a indústria de tecidos havia destruído uma importante parte da cultura indiana e provocado mais miséria e infelicidade. Assim, ele elegeu a roca (instrumento usado para fiar o algodão) como símbolo de sua filosofia.
Sob a liderança de Gandhi, os indianos começaram a bular leis e regras abusivas. Os protestos incluíam fazer sal (só os ingleses tinham autorização para fazer sal), vender livros proibidos ou distribuir o jornal Satyagrahi, editado por Gandhi. O Vice-rei foi avisado como parte da filosofia de Gandhi de ser totalmente leal com o adversário.
A reação das autoridades foi violenta. 379 pessoas foram mortas e mais de mil pessoas foram feridas. Para desgosto de Gandhi, muitos indianos haviam reagido violentamente à provocação da polícia, mas apenas nos locais onde não havia voluntários treinados na não-violência, ou onde estes haviam sido presos.
Gandhi foi preso e seu julgamento foi um ótimo exemplo de sua política de converter o oponente.  Juiz e réu trataram-se com tão grande cavalheirismo que muitos perceberam que o magistrado o admirava por sua coragem e probidade.
Gandhi foi condenado a seis anos de prisão e agradeceu a cortesia com que foi tratado.
Ao fim desse tempo, ele voltou à ação, numa serie de protestos que levariam a Índia à independência.
Um dos atos mais importantes dessa luta foi a marcha do sal, acontecida em 1930.
Os indianos eram proibidos de fazer o próprio sal e eram obrigados a pagar altas taxas pelo sal fabricado pelos ingleses. Quem mais sofria com essa determinação eram os pobres. Assim, Gandhi iniciou uma marcha na direção das salinas. Antes, ele mandou uma carta ao Vice-rei, informando-o do movimento. A marcha começou com 78 participantes, mas aos poucos foram se juntando milhares de pessoas. Os ingleses começaram a prender a todos que podiam, mas logo as prisões estavam lotadas.
Além das prisões, a polícia usou de extrema violência, mas os indianos não revidavam, pois sabiam que, se isso acontecesse, Gandhi cancelaria o movimento.
Um repórter que assistira aos protestos escreveu que os ingleses (que se orgulhavam muito de sua civilidade) haviam tido uma derrota moral ao agirem como bárbaro diante de pessoas totalmente pacíficas.
A opinião pública se voltou contra a Inglaterra e o Vice-rei foi obrigado a negociar.
Gandhi também comandou boicotes a produtos ingleses, especialmente as roupas. Ele propunha que as roupas fossem feitas pelas próprias pessoas, independente de sua condição social.
Nos anos seguintes, ele foi preso diversas vezes, mas as prisões, ao invés de calá-lo, só pareciam multiplicar o número de seus seguidores.
 Finalmente, em 15 de agosto de 1947, a Índia tornou-se independente, mas Gandhi não comemorou. Ele estava triste por saber que o país que tanto amava ia ser dividido em dois: o Paquistão, de religião mulçumana e a Índia, predominantemente hindu.
No dia 30 de janeiro de 1948 ele foi assassinado a tiros, em Nova Déli, por um fanático hindu, que não aceitava a política de Gandhi, segundo a qual todas as pessoas fossem tratadas com justiça e generosidade, independente da religião. Apesar do pedido de Mahatma para seu assassino não fosse punido, este foi preso e enforcado.
George Woodcock diz, no livro As idéias de Gandhi, que este foi um dos políticos mais hábeis de seu tempo, ¨ainda mais notável porque, recordando as lições do Bagavad Gita, jamais buscou recompensas da política¨.

Feliz Natal


Álbum de figurinhas Super Powers

Em 1988 a Cromy aproveitou que havia uma profusão de imagens de José Luís Garcia-Lopes usadas pela DC em produtos licenciados para fazer um álbum de figurinhas. As figurinhas eram metalizadas, uma novidade total para a época e as imagens faziam os fãs de quadrinhos babarem com a arte espetacular do mestre. Eu nunca tive o costume de colecionar figurinhas e deixei passar essa - e me arrependo até hoje. É um item de colecionador, disputado a tapas atualmente. Veja algumas páginas do álbum.









Feliz natal


Mindhunter: na mente dos assassinos


“Quem combate os monstros deve tomar cuidado para não se tornar também um deles. Se você olhar para a face do abismo, o abismo olhará para você”. Essa frase de Nietzsche é o melhor resumo da nova série da Netflix, Mindhunter.
Mindhunter foi criado por Joe Penhall com produção e direção de David Fincher, o famoso diretor de Seven e Clube da Luta.
Baseada em fatos reais, a série mostra como foi montada a divisão do FBI que entrevistava serial killers para fazer o perfil psicológico hoje usado pela polícia. E tudo começa meio que por acaso: um dia, quando estavam fazendo palestras para os policiais, um dos membros da divisão comportamental resolve visitar Ed Kemper na prisão. Big Ed é um dos mais famosos psicopatas de todos os tempos, tendo sido responsável pela morte e decapitação de jovens universitárias e até da própria mãe.
O que era uma atividade clandestina logo se torna uma divisão do FBI quando fica claro que o perfil criado a partir da entrevista com o Big Ed pode ajuda a prender outros criminosos.
Mas Mindhunter não é sobre infalíveis agentes do FBI prendendo psicopatas. Há muito pouca ação. A ênfase na maioria das vezes está nas tensas entrevistas com os assassinos e na forma nem sempre ética usada para conseguir as informações. E, principalmente, na maneira como isso mexe com o psicológico dos dois agentes responsáveis pelas entrevistas, afetando suas vidas profissionais, familiares e até sexuais.  

Mindhunter é um dos seriados mais inteligentes dos últimos tempos. 

Leitura e escola

A preocupação com a leitura parece cada vez mais urgente num país como o Brasil. Há tempos não se consegue formar uma geração de leitores, mas a situação parece ter piorado. A escola, que deveria ser a grande incentivadora da leitura, está provocando dois fenômenos preocupantes: o analfabetismo funcional e a fobia de livros. 

Os analfabetos funcionais são aqueles que frequentaram a escola mas, por falta de contato com a leitura e a escrita, foram perdendo a capacidade de compreensão do mundo das palavras. Luzia de Maria, no livro Leitura e colheita, conta que realizava uma oficina de leitura quando disse que um analfabeto funcional era aquele que não conseguia entender revistas como Veja, Isto e Época, e três professoras da plateia disseram: "eu". 

A fobia de livros é perfeitamente percebida quando se ouve alguém dizer que tem dor de cabeça quando começa a ler. É como se o organismo reagisse patologicamente a uma experiência traumática. 

Certa vez, eu lecionava um curso de histórias em quadrinhos para crianças da periferia de Belém e perguntei a elas qual era a diferença entre um gibi e um livro. Eu esperava que elas apontassem a ilustração como diferença, pois é possível publicar um livro sem desenhos, mas não é possível o mesmo com uma HQ. A resposta, dada por uma menina, surpreendeu-me: "O livro é chato; história em quadrinho é divertida". 

Na cabeça dela, o livro era algo lido por obrigação puramente escolar, sem nenhum prazer ou contato com a vida.

A grande pergunta que surge é: onde a escola errou? Por que, ao invés de despertar os alunos para a magia da leitura, ela os afastou dessa mesma magia? 

Esse desvio no caminho tem sua origem na noção de leitura que acompanha a maior parte da vida escolar. Nas escolas ainda predomina a visão do livro como objeto sagrado, típica da Idade Média. Nessa época, os escritos eram encadernados em couro, com ornamentação de metais preciosos. As Bíblias que existiam nas igrejas ficavam presas por correntes. O livro era um objeto caro, raro e distante.



Com a invenção da imprensa, surge aquilo que Marshall McLuhanchamou de "Galáxia Gutenberg". É inaugurado o pensamento linear e a visão cartesiana de mundo. 

É também a época das gramáticas normativas. Esses gramáticos viam na palavra escrita o lugar de acerto, de uma linguagem correta, a linguagem dos bons doutos. A linguagem oral, ao contrário, era o lugar do erro, do caos, da inconstância. Orientados pelo pensamento cartesiano, esses gramáticos se interessaram apenas pela ordem expressa da palavra escrita. 

Na escola, essa visão separou a fala e a escrita como ações contrárias, e os textos perderam contato com a vida real. Sua utilização na sala de aula privilegiava não o entendimento, não a atribuição de significado, mas a capacidade de decodificar os signos e de identificar classes gramaticais ou sintáticas. 

Assim, alfabetizado era aquele capaz de ler um texto em voz alta, ou tirar dele os substantivos, os verbos ou identificar as construções sintáticas. Pouco interessava se a pessoa estava conseguindo atribuir significado ao que lia.

Isso não faz parte de um passado remoto. Dia desses, meu filho trouxe um dever de caso que era a "interpretação" de um texto. A tal interpretação consistia apenas em descobrir encontros vocálicos no texto. Ou seja, a narrativa era apenas uma espécie refinada de tortura, com pouquíssima utilidade prática e sem nenhum significado. 

Rubem Alves diz que tem calafrios quando sabe que um de seus textos está sendo utilizado para isso. Enquanto escreve, nenhum escritor pensa em verbos, substantivos, ditongos, hiatos ou algo do gênero. 

Certa vez utilizaram um texto meu, sobre McLuhan, em um vestibular. Fui resolver as questões relacionadas ao meu texto e errei algumas. No texto eu explicava a teoria do filósofo canadense segundo a qual o homem inventou extensões de seu próprio corpo para melhorar seu desempenho. Uma das questões perguntava o que não era extensão do corpo humano. A resposta, segundo os elaboradores da prova, era roupa, porque eu não citava o vestuário em meu texto. Entretanto, uma compreensão correta do artigo levaria a identificar que o conceito era ampliável também para as roupas, afinal, elas são uma extensão da pele. O exemplo mostra que até a interpretação de um texto pode ser transformada em um ato mecânico, de retirar informações de um conjunto de palavras, sem a necessidade de entender seus conceitos. 

A falta de sentido desses exercícios é exemplificada num fato simples: gramática nenhuma jamais transformou alguém em escritor. Escrever é um ato criativo e pensar em hiatos e ditongos enquanto se escreve é provavelmente a melhor forma de se ter um bloqueio. 


Tenho um livro infantil, Os Gatos, publicado por uma editora de Curitiba. Na época a editora estava iniciando na área de literatura infantil e chamou um gramático para revisar os originais. A revisão tornou o texto totalmente incompreensível para uma criança e a editora foi obrigada a chamar uma professora de literatura infantil para refazer a revisão. Para o gramático, era mais importante que o livro fosse escrito nos moldes renascentistas da gramática normativa. Se haveria compreensão por parte da criança, pouco importava. 

Só existe uma maneira de tomar gosto pela leitura: lendo. Só existe uma forma de aprender a escrever bem: escrevendo. Nunca conheci um grande autor que não fosse um leitor voraz e um escritor compulsivo. 

Enquanto o texto for encarado apenas pelos seus aspectos gramaticais, enquanto a interpretação for a simples decodificação, sem a possibilidade de variedade de leituras ou de interpretação, a escola será sempre a criadora de analfabetos funcionais e de pessoas que têm dor de cabeça à simples visão de um livro.

sábado, dezembro 09, 2017

Ponto de venda: comunicação visual


A comunicação visual no ponto de venda é importantíssima. Antes de mais nada, é ela que permite ao consumidor visualizar o ponto de venda. A comunicação visual inclui desde a sinalização (que mostra onde encontrar os produtos) até banners com pôsteres com o perfil de clientes usando os produtos. Pouco importantes para os leigos, esses banners criam uma identificação com o cliente e fazem com que ele queira comprar e consumir os produtos.
As decorações sazonais também são importantes. Elas ajudam a “criar o clima”. Já imaginou entrar em uma loja, no final de ano, sem decoração de Natal? Parece que está faltando alguma coisa. Mas é necessário tomar cuidado com essas decorações. O ideal é, passada data, retirar tudo.
Também é necessário tomar cuidado com cartazes, avisos e placas. Placas velhas, com letras tortas ou com erros de português mancham a imagem da loja e podem destruir todo o esforço de merchandising. 

Feliz natal


Distopias hipodérmicas em Literatura Lado B

Literatura Lado B foi uma antologia organizada por Denize Lazarin e Rodolfo Londero e publicado pela Editora da Unicentro com textos sobre ficção científica, terror, fantasia e quadrinhos.
O título refere-se ao fato desse tipo de literatura ter pouca visibilidade nos estudos acadêmicos. Geralmente o lado B é o que trazia as músicas menos conhecidos dos discos. Da mesma forma, são poucos os estudos sobre literatura de gênero no Brasil

Eu colaborei com o artigo “As distopias hipodérmicas”, sobre a como a teoria hipodérmica da mídia influenciou algumas das principais distopias do século XX: Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451. Clique aqui para baixar o livro. 

Biografia de uma lenda


Informamos ao nosso distinto público que se encontra à venda o livro Francisco Iwerten - A Biografia de uma Lenda ao preço promocional de 15 reais apenas até o início do ano. Aproveite o clima natalino para presentear seus amigos com essa maravilhosa biografia. Interessados, favor contatar o senhor Gian Danton através do e-mail profivancarlo@gmail.com e mencionar este anúncio. 

A arte polêmica de Caravaggio


Michelangelo Merisi da Caravaggio é um dos grandes nomes do barroco italiano. Sua obra é considerada uma das mais emblemáticas do período, entretanto provocou grande polêmica à época por retratar figuras bíblicas com feições de pessoas comuns da italiana renascentistas, inclusive prostitutas e cafetões amigos seus. Sua obra angariou severos críticos, mas também apaixonados admiradores. Confira algumas pinturas desse controverso artista.  











Feliz natal


A convergência de mídias

Vivemos em um mundo em que a separação entre as coisas vai, aos poucos, se diluindo. Casa, trabalho, diversão e informação são instâncias que se misturam na era da informação. Da mesma forma, a separação entre os meios perde cada vez mais valor, num fenômeno que os estudiosos chamam de convergência de mídias. Para entender esse fenômeno, é necessário associá-lo à sociedade em redes que surge em oposição à era das massas. 

No período dominado pelos MCM, o esquema era um para muitos. Um único produtor confeccionava a mensagem e a transmitia para uma grande legião de receptores. A estes, só restava consumir ou não. A única outra forma possível de feedback eram as respostas a pesquisas de opinião. 


 
A internet mudou completamente esse esquema. Agora todos querem ser produtores, todos querem participar e interagir, daí o sucesso de redes sociais, como o Facebook e o Twitter. Até mesmo os políticos, normalmente pouco afeitos a abrirem um canal de retroação com seus eleitores, foram obrigados adotar a lógica interativa. É bastante conhecido o uso do Twitter como elemento importante na campanha de Obama à presidência dos EUA. No Brasil vários políticos estão adotando o Twitter como forma de divulgar suas ações e conversar com os eleitores. Entretanto, aqueles que entraram na rede, mas se recusaram a interagir, revelando um desconhecimento do funcionamento das novas mídias, foram bloqueados pela maioria das pessoas. 

Essa postura interativa das novas gerações leva a uma cultura de convergência. Os jovens antenados assistem à notícia na TV, procuram mais informações em blogs e comentam o assunto no Twitter. Muitos nem usam mais a TV, preferindo aparelhos celulares, ou o Youtube. 


Para que essa cultura de convergência são necessários dois fatores: a digitalização crescente de conteúdos e a disponibilização dos mesmos na rede mundial de computadores. A digitalização nem sempre é feita pelos produtores, muitos dos quais se recusam a aceitar a nova realidade do cibermundo, mas pelos próprios consumidores.

Castells, no livro A sociedade em rede, diz que a origem universitária da internet faz com que ela adote como lema: todos contribuem com todos. Nessa nova realidade, o status é dado pela capacidade colaborativa. Quem mais transmite e difunde informações ganha seguidores e respeito. Exemplo disso são os blogs de scans, cujos autores escaneiam suas coleções, disponibilizando histórias em quadrinhos, muitas das quais raras, ou que nunca seriam lançadas no Brasil. 

 Essa cultura de compartilhamento faz com que programas de TV estejam disponíveis no Youtube ou em outros sites pouco depois de sua exibição. Alguns programas tentam lutar contra essa tendência, outros se aproveitam disso para aumentar sua audiência, como o CQC e Lost. 

O caso do Proteste Já Barueri é exemplo disso. No ano de 2010, o CQC doou uma televisão de plasma à prefeitura de Barueri para ser usada em uma escola pública. O aparelho foi desviado para a casa de uma funcionária. A matéria foi proibida pela justiça e o anúncio da proibição fez aumentar os comentários no Twitter, em tempo real, sobre o caso. A tag #cqc logo se transformou numa das mais populares e permaneceu assim durante toda a semana seguinte, num movimento virtual pela liberação da reportagem. O perfil dos responsáveis pela denúncia, Rafinha Bastos e Danilo Gentili, logo se tornou o mais popular do Brasil. Hoje Rafinha é a personalidade mais influente do mundo no Twitter. 

A exibição o programa na semana seguinte se beneficiou desse viral. Curiosamente, muitos dos que comentaram o assunto não haviam assistindo na televisão, mas no Youtube. 

O assuntou ganhou novo fôlego na rede com a divulgação de um vídeo amador no qual a filha do secretário de educação de Barueri aparecia ameaçando expulsar um colega de turma da faculdade. Como uma bola de neve, que se auto-alimenta, o vídeo aumentou a procura pela reportagem do CQC na internet e estimulou a audiência do programa. Por sua vez, os integrantes do programa também contribuíram para aumentar a visibilidade do vídeo. 


Outros exemplos de estratégias de convergência são o filme Matrix e o seriado Lost. Matrix usou os filmes, jogos, histórias em quadrinhos e até contos para contar a história. 

Lost foi chamado pela revista Superinteressante como a série que marcou o fim da TV como a conhecemos hoje. Seriado da era da convergência, Lost teve parte de sua história contada em episódios para celular e as mais diversas informações espalhadas pela internet. O enredo complexo justifica essa busca e levou até à criação de uma Lostpedia por parte dos fãs. 

Nesse contexto, os fabricantes buscam a criação de um aparelho que resuma essa convergência. Em aparelhos celulares já é possível assistir à televisão, ouvir rádio, fazer ligações, mandar mensagens, entrar na internet, jogar e entrar na internet para interagir com outras pessoas através das redes sociais. O sucesso dos smartphones é sinal claro da tendência do mercado a procurar aparelhos convergentes. 

O recente sucesso dos tablets também é demonstração da busca por uma unimídia, um aparelho que faça a convergência pela qual anseia a nova geração. Da mesma forma, o anúncio do Google TV, versão do mecanismo de busca para a televisão digital indica outra possibilidade nesse sentido. 

Qualquer que seja o futuro das comunicações, ela será focada busca de uma mídia que reúna em si todas as outras. A convergência parece ser um fenômeno irreversível. 

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Feliz natal


Os herdeiros da caverna

Gian Danton

Eu me lembro perfeitamente da primeira vez que vi um fã do Fantasma. Claro, eu já conhecia o personagem, e já tinha lido alguma coisa por alto, mas não imaginava toda a mitologia que havia por trás do personagem. E nem de longe podia imaginar a razão de tanto sucesso. Foi naquele dia que, pela primeira vez prestei atenção ao espírito-que-anda e foi naquele dia que tive o insight sobre a razão de seu sucesso.
O dito colecionador era um jovem senhor, na casa dos vinte e poucos anos, já graduado e na época cursando mestrado. Mas naquele dia, limpando e organizando suas revistas, ele parecia uma criança inebriada com um brinquedo novo. Ele sabia de cor tudo sobre o personagem, seus artistas e histórias e inebriava-se contando como o Fantasma havia derrotado os terríveis japoneses em plena II Grande Guerra.
Mais tarde, quando o pai dele chegou, os dois ingressaram juntos na fantasia que incluía Capeto, a caverna da caveira, os pigmeus e tudo o mais. Olhando dois eu percebi o que havia de tão interessante naquela história em quadrinhos: O Fantasma é uma história sobre herança. Sobre pais e filhos, sábios e discípulos. Não é por acaso que tantos pais legam a leitura desses gibis aos seus filhos. Temas como esse sempre calam fundo por falarem dos mitos mais ancestrais.
Não é de estranhar que esse seja o tema da tira. O criador do personagem, o escritor norte-americano Lee Falk, sempre teve um olhar paternal para com suas criações. Tanto que uma única vez o Fantasma fugiu de seu controle: quando foi publicado no Brasil e os editores, sem referencial de cores, trocaram o roxo original pelo vermelho, mais fácil de imprimir.
Lee Falk nasceu em 12 de abril de 1991, na cidade de St. Louis, Missouri. O primeiro personagem imaginado por ele foi o mágico Mandrake, criado aos 19 anos e fruto do fascínio do escritor pelos mágicos e ilusionistas.
Algum tempo depois, ele desenhou algumas tiras do personagem e aproveitou uma viagem que fez com seu pai para Nova York e passou nos escritórios da King Features Sindicate. Passou o dia mofando na ante-sala do chefão da KFS, Joe Conolly, mas quando este viu o material, decidiu-se imediatamente pela história. Era uma época de mudança, em que as antigas tiras cômicas estavam sendo abandonadas pelo público em favor de histórias de aventuras, que os levassem a viajar por mundos imaginários e esquecer as agruras da depressão norte-americana e as histórias do mágico se encaixavam nesse perfil.
Pouco seguro de seus dotes artísticos, Falk encarregou um colega, o desenhista publicitário, Phil Davis, de ilustrar o personagem. Mandrake estreou em 11 de junho de 1934, quando o escritor tinha apenas 23 anos. E foi um sucesso.
Lee Falk tornava-se não só um autor de sucesso, como também o primeiro roteirista de quadrinhos. Antes dele havia outras pessoas que se encarregavam da parte textual, como o criador do romance policial Dashiell Hammett, que assinava o Agente Secreto X9, mas faziam isso como se estivessem envergonhados de se envolverem com algo tão trivial. Falk, ao contrário, assumia seu amor pelo que fazia, o que provavelmente é uma das razões da verdadeira idolatria dos fãs por ele.
O nome do mágico era inspirado na planta mandrágora, usada como medicamento há séculos. Junto com ele, surgia seu fiel escudeiro, Lothar, um negro vestido de maneira exótica. Pouco tempo depois surgiu Narda, uma princesa do reino de Cockaigne que tinha uma curiosa característica: a ausência de umbigo. Inicialmente pensou-se que fosse falha de Phil Davis, mas a conforme a história avançava e o umbigo não aparecia, muitos estudiosos começaram a cogitar que Narda seria apenas mais uma ilusão do mestre das artes mágicas... uma antecipação talvez de temas como os que foram explorados em Matrix.
A história do umbigo demonstra a mitologia que se formou não só em torno da obra, mas também da vida do criador Lee Falk. Na época em que criou seu primeiro personagem, os relações públicas da KFS pediram dele uma biografia para ser apresentada aos jornais. Falk escreveu que era um aventureiro que, em suas viagens pelo mundo, encontrara diversos magos e se inspirara neles para criar Mandrake. Tudo balela, claro, mas convenceu.
Dois anos depois, Falk teve uma idéia para seu segundo personagem e a apresentou à KFS, que comprou de imediato o projeto. Para desenhar, foi chamado o assistente de Davis, Ray Moore, que deu ao personagem um traço elegante e misterioso.
A primeira história mostrava a saga de um lorde inglês, Kit Walker, único sobrevivente de um ataque pirata que jura devotar sua vida à destruição da pirataria, ganância, crueldade e injustiça. E não só isso: também seus filhos e os filhos de seus filhos seguiriam seu caminho. Assim que morria um fantasma, seu filho assumia seu lugar no combate ao mal. Para evitar que os malfeitores percebessem a troca, o herói usava uma máscara, dando a entender que o personagem era imortal.
A idéia inicial era mostrar o personagem como uma espécie de playboy que combatia o crime à noite, assustando malfeitores, um conceito muito próximo de personagens clássicos da literatura, como Zorro ou o Pimpinela Escarlate e certamente uma antecipação de Batman. Mas com o tempo, Falk foi se distanciando dessa idéia e, ao deslocar a ação para o mítico país de Bangala construiu toda a mitologia do personagem.
Falk, fã de Rudyard Kipling, cria a tribo de pigmeus bandar, inspirados na tribo de macacos homônimos de O Livro da Selva. Surgem as crônicas do Fantasma, os anéis, um para amigos, outro para inimigos, a Ilha do Éden, onde leões e tigres convivem harmonicamente com zebras e girafas. Surgem a cabana de Jade, onde os Fantasmas passam sua lua-de-mel, as Montanhas Misteriosas, a plataforma Walker, base de operações do Fantasma na América... a cada nova aventura um novo detalhe é acrescentado.
É essa mitologia que vai fazer com que o Fantasma torne-se eterno e angarie mais fãs que seu irmão mais velho, o Mandrake. A herança passada de pai para filho inclui os diversos itens que foram se acumulando ao longo do tempo e qual era a criança que não sonharia ganhar tudo isso de seu pai? De certa forma, é como se o leitor fosse o XXII Fantasma, lendo as crônicas de seu antecessor e preparando-se para entrar em ação e enfrentar o mal. E quando um pai lega ao filho a velha coleção de revistas do Fantasma, vai com ela todo o resto da mitologia.
Lee Falk podia não saber, mas estava construindo uma das grandes mitologias do século XX, um personagem que, mesmo diante de concorrentes mais modernos, terá seu lugar.
Nos anos 70 o Fantasma migrou para a literatura, numa série de livros publicados pela Avon Books e escritos pelo próprio Lee Falk. Também foi na década de 70 que o escritor ganhou o reconhecimento internacional com o prêmio Yellow Kid recebido em Luca, em 1971.
Aliás, Falk, embora fizesse questão de ser conhecido como escritor de quadrinhos, era também um teatrólogo de sucesso, tendo trabalhado com artistas como Marlon Brando e Charlton Heston.
Falk morreu em 13 de março de 1999. Até os últimos dias ele escreveu as tiras de Mandrake e Fantasma. Um pai preocupado até o último momento com seus dois filhos diletos e com seus milhões de filhos adotivos, leitores ávidos por mais e mais aventuras de seus heróis favoritos.

Ps: este texto foi publicado na edição especial sobre o Fantasma lançado pela editora Opera Graphica em homenagem aos 60 anos do personagem.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Marketing: Ambiente de compras


O ideal é evitar todos esses erros, criando um ambiente de compra agradável. Um dos elementos usados para isso é a iluminação. A regra básica para uma loja é que ela deve estar bem iluminada. Quem está passando na rua ou no corredor de um shopping e vê a loja escura, acha que ela está decadente e dificilmente entra. Muitas lojas utilizam a estratégia de usar uma forte iluminação interna, mas uma iluminação mais branda na vitrine, o que destaca o interior ao mesmo tempo em que permite chamar atenção para os produtos da vitrine, usando luz focada.
A iluminação tem sido usada também para destacar as características positivas do produto, tornando-se verdadeiras pistas de qualidade. Na padaria, usa-se luz amarela para destacar a cor dos pães. Na parte de carnes, usa-se luz vermelha, para destacar a cor da carne, tornando-a visualmente mais saborosa.
O som é outro elemento importantíssimo. Muitos lojistas colocam qualquer tipo de música e acham que estão chamando os clientes, quando na verdade os estão afastando. Devem ser evitadas especialmente músicas com batidas muito pesadas. Essas músicas, que aceleram o batimento cardíaco e fazem com que o corpo libere adrenalina, podem ser boas para uma academia, mas são péssimas para uma loja. Ali, ela vai apenas estressar a pessoa, deixando-a impaciente e irritadiça.
O ideal é trabalhar com um som suave, que envolva o cliente, deixando-o relaxado.
Nos supermercados, pesquisas demonstram que a música ideal varia de acordo com o horário do dia e deve ser usada para regular o ritmo de compra. De manhã, os consumidores de terceira idade costumam fazer suas compras, por isso a música deve ser calma e suave.
Na hora do almoço, a música é um pouco mais agitada porque muita gente enche o supermercado e quer fazer suas compras rápido. Uma música mais agitada ajuda nesse ritmo e evita filas nos caixas. Mas atenção: nada de música irritante. Nem pense num heavy metal ou num funk.
À tarde, a música volta a ser suave, mas com cantores e bandas mais atuais.
Entre 17 e 19 horas começa o rush dos supermercados, com as pessoas que  saem do trabalho e param para fazer compras antes de ir para casa. A música deve ser mais acelarada, como na hora do almoço.

Quem vai depois das 19 horas no supermercado já está se preparando para ir dormir, por isso a música deve ser bem suave, como que embalando o consumidor e deixando-o tranquilo para comprar. 

Feliz Natal


Você Telecom e a humilhação do consumidor

Ontem acordamos sem internet. Depois de muito ligar para a Você Telecom, me informaram que havia uma dívida de 3 reais no mês de abril. Sim, três reais!
Procurei a conta de abril e estava paga. Liguei de novo e informaram que só poderia ser resolvido na loja. 
Loja lotada, com dezenas de pessoas amontoadas numa sala mínima, como gado - a maioria das quais reclamando de cobrança indevida, gente com a conta paga na mão, tendo que comparecer lá para provar que tinha pago a conta.
Depois da manhã inteira de espera, fui finalmente atendido para me dizerem o que eu já sabia: que a cobrança é indevida. 
Esse é o capitalismo à brasileira: a empresa que tem praticamente o monopólio do serviço cria todas as dificuldades para que os consumidores possam reclamar para poderem cobrar indevidamente e fazerem o que quiserem. 
O pior de tudo: a Anatel só aceita denunciar a operadora se você já entrou com uma reclamação na própria operadora (e, para fazer essa reclamação, eu teria que passar mais horas na fila).
O resultado você vê na foto: dezenas de pessoas amontoadas como gado, consumidores humilhados por conta da ganância ou incompetência de alguns. Gente que, como eu, precisou passar a manhã inteira numa sala lotada, em pé, por causa de uma cobrança indevida de 3 reais. Coisa que em qualquer empresa que tivesse a mínima preocupação com o consumidor poderia ser facilmente resolvida por telefone ou em uma das várias outras lojas. 
Em tempo: procurei o site do Reclame aqui e descobri que há centenas de reclamações contra a Você Telecom. A empresa não se deu a trabalho de sequer responder a nenhuma das reclamações. 

Mafalda: a rebelde dos quadrinhos

      
O grande suces­so da HQ argentina é mesmo a Mafalda. Essa garotinha inteligente e fã dos Beatles surgiu por acaso, em 1962, para uma campanha publicitária de eletrodomésticos. Ela deveria ser a mascote de uma empresa e seu nome deveria começar com as mesmas letras da empresa, M e A.Quino desenhou a personagem e chamou-a de Mafalda, mas a empresa acabou recusando a campanha.
      No ano seguinte, o semanário Primera Plana solicitou a Quino uma tira cômica e ele tirou da gaveta a personagem criada para a campanha publicitária. A personalidade atrevida, já existente na versão anterior foi destacada e, em setembro de 1964 Mafalda estreou no semanário onde passou seis meses.
      Em 1965 a personagem migrou para o diário El mundo, de Buenos Aires, um dos mais lidos da Argentina, e começou sua escalada de sucesso. Logo vários outros jornais estavam republicando as tiras.
      Em 1966, um pequeno editor de Buenos Aires lança um álbum com tiras já publicada em jornal. Apesar de não ter havido um grande divulgação, a publicação se esgota em 12 dias. Logo várias editoras na América latina começam a publicar álbuns com a personagem com grande sucesso. Na Itália, o álbum da personagem ganha prefácio de Umberto Eco, um dos mais importantes intelectuais daquele país, que escreve: ¨O universo de Mafalda não é apenas o de uma América Latina urbana e desenvolvida; é também, de modo geral e em muitos aspectos, um universo latino, o que a torna mais compreensível do que muitos personagens de quadrinhos norte-americanos¨.
      De fato, esse é um dos grandes méritos de Mafalda e é o que a distingue de Peanuts, de Charles Schulz. Charlie Brown reflete a realidade e as neuras do norte-americano típico. Mafalda é a contestadora, revoltada com as injustiças do mundo.
      Se Peanuts está mais para a psicologia, Mafalda está mais para a sociologia. A sociedade latin-americana está lá representada nos personagens da tira. Manolito, por exemplo, é o filho do dono da mercearia. Ele está plenamente integrado ao capitalismo de bairro. De tudo na vida, só o dinheiro tem valor e mesmo uma ação simples como brincar de iô-iô tem como objetivo divulgar a mercearia do pai. Filipe é um sonhador que fantasia com tudo. Suzanita só pensa em casar.
      Quando a ditadura militar se instalou na Argentina, uma nova personagem se agregou à tira: a pequenina Liberdade.

      Algumas das melhores tiras da Mafalda tinham como personagem coadjuvante um globo terrestre, quase sempre doente. Quino sempre foi muito bom em metáforas. 

Feliz natal


O uivo da górgona


Um som se espalha pela cidade (ou pelo estado, ou pelo país, ou pelo mundo?). Um som que ouvido transforma as pessoas em seres irracionais cujo único o objetivo são os instintos básicos de violência e fome. É o uivo da Górgona.
Acompanhe a história dos sobreviventes neste livro de terror, uma história de zumbis diferente, em que qualquer um pode se transformar, bastando para isso ouvir o terrível uivo da górgona.
Escrito em capítulos curtos, o livro transforma o suspense em elemento de fantasia, prendendo o leitor da primeira à última página. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

Duas pérolas de Billy Wilder

Já escrevi aqui que Billy Wilder é um dos meus diretores prediletos. É o equivalente cinematográfico de Marcos Rey ou Monteiro Lobato em termos de preferência. Neste post comentarei duas obras-primas desse diretor: Se meu apartamento falasse e O pecado mora ao lado.
 

O pecado mora ao lado (1965) é mais conhecido pela famosa cena de Marilyn Monroe com a saia levantada pelo vento. É a história de um homem cuja família saiu de férias e que se sente atraído por uma linda vizinha. Wilder consegue fazer dessa premissa boba um filme delicioso, divertido do início ao fim. É um estilo de direção que não cansa, apesar de lento em comparação com a moda atual de edição frenética. Destaque para a metalinguagem: em determinado momento, uma visista pergunta se tem alguém na cozinha e o homem responde: você acha que a Marilyn Monroe está na minha cozinha? Aliás, a atuação de Marilyn é a alma do filme. Só ela conseguiria fazer a garota ingênua e, ao mesmo tempo, extremamente sensual, que o papel exigia.

 

Apesar de maravilhoso, O pecado mora ao lado é só uma comédia de costumes. Se meu apartamento falasse (1960) vai muito além. Pela profundidade, lembra Chaplin: um empregado de uma grande empresa empresta seu apartamento para os chefes como forma de conseguir uma promoção. Mas as coisas começam a complicar quando ele descobre que o chefe está levando para seu apartamento a garota pela qual é apaixonado. A partir daí o filme oscila entre a comédia, o drama e o romance. Atuação fenomenal de Jack Lemmon e de Shirley McLaine ainda muito novinha e linda.

Mundo sem fim

Mundo sem fim é a continuação de Os pilares da terra, clássico da literatura histórica de autoria de Ken Follett. Da mesma forma que Os pilares da terra, Mundo sem fim se passa na Idade Média, na imaginária cidade de Kingsbridge, mas pouco mais de um século depois.
Follett é aquilo que no cinema chamam de artesão competente: não é genial e nem de longe de propõe a fazer alta literatura, mas tem uma incrível capacidade de engendrar tramas bem elaboradas, construir bons personagens e produzir livros em que tudo se encaixa com perfeição, com um quebra-cabeça.
Se Os pilares da terra já mostravam todas essas características, elas ficam ainda mais destacadas em Mundo sem fim. A isso acrescenta-se uma mais elaborada pesquisa histórica e um pano de fundo que por si só chama a atenção do leitor: a nova história se passar no período da guerra dos 100 anos entre França e Inglaterra e da peste negra (ou peste bubônica).
Follett conta em detalhes vivos o efeito da devastação da guerra e evolui para a mortandade absoluta da peste, que dizimou quase metade da população de algumas cidades. Ninguém sabia o que provocava a doença (hoje sabe-se que ela era transmitida pelas pulgas dos ratos).
A peste negra colocou em cheque o conhecimento médico da época, baseado na ideia dos humores, e criou uma cisão entre conservadores e progressistas (os que acreditavam que a melhor forma de entender as doenças era observar os doentes e, assim, tentar identificar formas de evitar que doenças se espalhassem). Mundo sem fim mostra esse conflito, exemplificado entre uma das personagens, uma freira, que usa máscara para atender os pacientes e lavava as mãos com vinagre, e os médicos tradicionais que consideravam isso besteira (e morriam como moscas). Curiosidade: Hoje sabe-se que o vinagre na verdade afastava as pulgas.

Aliás, todo o livro, assim como o anterior, parece se equilibrar na relação conservadores x progressistas ou teóricos x práticos. Tanto em Os pilares da terra quanto em Mundo sem fim, o foco é a catedral e os homens visionários que estiveram por trás dela, homens muito além de seu tempo.