quinta-feira, julho 28, 2016

Grade ou matriz curricular?


É comum ouvir os defensores do projeto escola sem partido falarem de uma tal de "grade da escola", que deveria ser seguida rigidamente pelo professor. Mas o que é essa tal de "grade da escola"?
Para começar, não existe grade da escola. Quer dizer, existe. Algumas escolas têm grades nas janelas. Mas o que a pessoa, especialista em educação, deve estar se referindo é a "grade curricular", um termo que não é mais usado há muito tempo. Hoje usa-se matriz curricular.
Grade significação prisão: é uma normatização rígida da educação que não deixa margem para adaptações.
Um ótimo exemplo de grade curricular é a frase "Vovô viu a uva". Crianças do Rio Grande do Sul ao Amazonas eram alfabetizadas com ela. Crianças que nunca tinham visto uma uva aprendiam a ler com uma frase que não lhe dizia nada. Mas todos deviam seguir a grade curricular, então todos os professores, de norte a sul, seguiam a grade curricular.
Já a matriz curricular permite adaptações, é flexível.
Um exemplo. Certa vez, quando lecionava redação, cheguei na sala de aula e descobri que os alunos só falavam do fim do mundo. No dia anterior, uma matéria do Fantástico mostrara um grupo de fanáticos que acreditava que o mundo iria acabar aquela semana. O livro me indicava um determinado tema para a redação, mas eu o modifiquei. Fizemos um pequeno debate sobre o que os alunos achavam sobre a questão do fim do mundo e depois cada um escreveu uma redação sobre o tema.
Isso é matriz curricular, algo, aliás, que o escola sem partido quer acabar. Pelo escola sem partido, todos os professores deverão seguir rigidamente um modelo rígido, inflexível. Voltaremos ao "Vovô viu a uva".

segunda-feira, julho 25, 2016

As crianças criadas em bolhas


Um dos fenômenos mais preocupantes da saúde pública atual são as alergias. Cada vez mais crianças se tornam alérgicas a tudo, de animais domésticos a amendoim (nos EUA há escolas em que é proibido entrar com amendoim, tamanha a quantidade de alunos alérgicos a esse alimento).
Isso é provocado pela super-proteção por parte dos pais. Se por um lado há milhares de crianças das classes mais pobres que são criadas sem nenhuma assistência ou cuidado, no outro oposto temos crianças cujos pais as protegem de tudo.
Antigamente as crianças brincavam na rua, se sujavam, conviviam com cãs, gatos, galinhas, insetos, andavam descalças. Hoje, os pais protegem as crianças de tudo: não pode andar descalça, não pode ter contato com a terra, não pode tudo. O resultado: o organismo não aprende a lidar com o mundo, tudo passa a ser considerado uma ameaça, e como consequência o número cada vez maior de crianças alérgicas a tudo.
Isso é ainda mais concreto quando se trata de questões mais subjetivas. A mentalidade é de que as crianças devem ser criadas numa bolha e protegidas de tudo. Não pode existir publicidade infantil porque a criança que ver publicidade vai comprar descontroladamente, vai comer descontroladamente.
Livros de Monteiro Lobato devem ser proibidos na escolas porque as crianças negras precisam ser protegidas do racismo do Sítio do Pica-pau Amarelo.
O projeto Escola sem partido é um dos ápices dessa super-proteção. Crianças não podem na escola ter contato com ideologias diversas das dois pais. Devem viver numa bolha idelógica em que só se tem contato com aquilo que os pais acreditam, inclusive em termos religiosos. A ideia de que a vida é feita de vários pontos de vista e que a maturidade surge exatamente da percepção dessas diferenças e da análise crítica das mesmas é inconcebível. O importante é proteger as crianças.
Quando o tem é sexo a bolha é ainda mais encorpada.
Nas décadas de 1960 e 1970, adolescentes e pré-adolescentes compravam em bancas os catecismos de Carlos Zéfiro e era neles que descobriam o sexo. Se vivesse hoje em dia, Zéfiro seria um escândalo. Jornaleiros seriam presos. Bolsonaro faria vídeos irados acusando Zéfiro de pedofilia ou de estimular a sexualidade.
Na década de 1980 milhares de adolescentes adentraram os mistérios da sexualidade com o famoso comercial do primeiro sutiã que mostrava uma garota pré-adolescente ganhando seu primeiro sutiã do pai. Sutil e bonito foi quase uma aula para muitos garotos e garotas para aceitarem as transformações em seus corpos e lidarem com isso. Hoje em dia, um comercial desse tipo seria impensável. Estrearia num dia e no dia seguinte teríamos um vídeo irado de Bolsonaro afirmando que o comercial incitava a pedofilia.
Amigos desenhista que divulgam seus trabalhos no Facebook costumam reclamar que qualquer desenho um pouco mais sensual é imediatamente denunciado por pais preocupados caso seus filhos vejam aquela imagem. A paranóia por parte dos pais de impedir os filhos de terem contato com qualquer coisa que tenha mínima relação com o sexo em alguns casos alcança níveis extremos.
Não admira que a área da medicina que mais cresca seja exatamente a das disfunções sexuais. Superprotegidos de qualquer contato com qualquer coisa que lembre sexo, a nova geração fica totalmente perdida quando finalmente adentra na vida sexual (e, no outro extremo, as crianças criadas sem nenhuma orientação, cuja entrada na vida sexual é acompanhada de doenças e principalmente gravidez indesejada).

Proteger as crianças virou desculpa para proibir qualquer coisa. Não faz muito tempo, um deputado e delegado da polícia federal pediu a proibição do filme Ted com a justificativa de que não era adequado a crianças. Pouco importava que o filme fosse direcionado a adultos. O importante era proteger as crianças e criá-las numa bolha, longe de qualquer coisa que os pais considerem inadequado. 

sábado, julho 16, 2016

Biografia do criador do Capitão Gralha em pré-Venda


Na década de 1940 um quadrinista curitibano criou um dos primeiros super-heróis brasileiros, o Capitão Gralha com uma ampla galeria de histórias e vilões e foi resgatado na década de 1990 por jovens artistas que, em sua homenagem, criaram o personagem O Gralha. Ele, na verdade, numa existiu, mas se tornou lendário, ganhou prêmio, tornou-se famoso e quase foi homenageado por uma escola de samba. É essa história que é revelada no livro Francisco Iwerten – biografia de uma lenda, de Gian Danton e Antonio Eder, editora Quadrinhópole, que está em pré-venda ao preço promocional de 14 reais até o dia 29 de julho.
O livro é do tipo vira-vira, com dois lados que se completam. Na primeira parte, é contada a biografia fictícia de Iwerten como se ele de fato tivesse existido, sua vida, seus anseios, as inspirações para o Capitão Gralha e as dificuldades com a concorrência dos quadrinhos americanos e a perseguição local contra seu personagem. No outro lado, é contada a história “real”, com o contexto da criação de Iwerten e as consequências da história fake, que, de uma brincadeira para dar verossimilhança ao personagem Gralha, escapou do controle de seus autores e se tornou muito maior do que cada um poderia esperar. A lenda Iwerten cresceu tanto que se chegou a dizer que ele foi um dos criadores do Batman.  

Um dos destaques do livro são as capas criadas por JJ Marreiro. No lado “A história do Capitão Gralha”, Iwerten aparece em sua prancheta, ilustrando o capitão e tendo seus quadrinhos ao fundo. No outro lado, em que se conta a história por trás da lenda, Iwerten aparece dentro dos próprios quadrinhos, sendo desenhado por uma mão em estilo realista. As capas representam os dois aspectos abordados na obra: Iwerten como autor e Iwerten como personagem.
O livro traz ainda o processo de criação visual de Iwerten, feita por JJ Marreiro e Fernando Lima a partir de manipulação digital de fotos antigas.
Gian Danton e Antonio Eder fizeram parte do grupo de autores que criou o Gralha e elaborou a lenda de Iwerten e do Capitão Gralha. O livro integra a pesquisa doutorado em Arte e Cultura Visual de Gian Danton realizada na FAV-UFG, sob orientação do professor Dr. Edgar Franco.
Francisco Iwerten – biografia de uma lenda -  será vendido a 20 reais, mas na pré-venda sairá por 14 reais, com frete incluso. A pré-venda vai até o dia 29 de julho, quando os exemplares começarão a ser enviados. Os pedidos podem ser feitos para o e-mail: profivancarlo@gmail.com.

SERVIÇO
Pré-venda do livro Francisco Iwerten – biografia de uma lenda, de Gian Danton e Antonio Eder
Valor: 14 reais (frete incluso)

Contato: Através do e-mail profivancarlo@gmail.com

terça-feira, julho 12, 2016

Revelada a capa da biografia de Francisco Iwerten

Olha aí a capa da Biografia de Francisco Iwerten, o pioneiro dos super-heróis brasileiros. O design é de JJ Marreiro e Fernando Lima.

domingo, julho 03, 2016

Escola sem partido: demissão, prisão e perda de bens


Ainda sobre o projeto Escola sem partido, é interessante verificar o cenário que descortina caso a lei seja aprovada. 
Como já disse, uma lei que proíba o assédio moral nas escolas é bem-vinda, mas não é o caso. A lei parece ser ampla para enquadrar qualquer coisa que desagrade os pais de alunos. 
Vejam o artigo terceiro: 
"Art. 3º. São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica BEM COMO A VEICULAÇÃO DE CONTEÚDOS OU A REALIZAÇÃO DE ATIVIDADES QUE POSSAM ESTAR EM CONFLITO COM AS CONVICÇÕES RELIGIOSAS OU MORAIS DOS PAIS OU RESPONSÁVEIS PELOS ESTUDANTES".
Leiam a parte em destaque. O professor fica proibido de veicular qualquer conteúdo ou realizar qualquer atividade que vá contra as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis. 
Recentemente, em Manaus, alunos evangélicos se recusaram a fazer um trabalho sobre a África e ler clássicos como Iracema e Macunaína alegando convicções religiosas. Se a lei já estivesse em vigor, a situação se enquadraria perfeitamente na veiculação de conteúdos e atividades que entram em conflito com as convicções religiosas dos alunos. 
No site da Escola sem partido há um modelo de notificação extra-judicial que pode ser usada pelos pais para ameaçar professores. No item 15 é dito que até conteúdos científicos (aqui provavelmente se referindo às ciências chamadas "duras", como física, biologia etc) deve-se tomar o máximo de cuidado para não desagradar pais de alunos: 


"15.    Nesse domínio, ademais, a linha que separa a ciência da moral, além de não ser muito nítida, pode variar de indivíduo para indivíduo, conforme o estágio de amadurecimento, a sensibilidade e a formação de cada um. Portanto, ATÉ MESMO PARA FAZER UMA ABORDAGEM ESTRITAMENTE CIENTÍFICA, O PROFESSOR DEVERÁ ATUAR COM O MÁXIMO DE CUIDADO, SOB PENA DE DESRESPEITAR O DIREITO DOS ESTUDANTES E O DE SEUS PAIS."
Na mesma notificação extra-judicial, os professores que fizerem ou abordarem qualquer assunto que desagrade os pais são chamados de "abusadores de crianças" e ameaçados com prisão, demissão e perda dos bens: 
"9.    Junto com a liberdade e o cargo ou emprego, esses abusadores de crianças e adolescentes podem perder ainda o seu patrimônio, caso os pais dos seus alunos ‒ que são muitos ‒ decidam processá-los por danos morais". 
Em outras palavras: no futuro da escola sem partido, um professor poderá ser preso, demitido e até perder os bens apenas porque mandou um aluno ler livros como Iracema ou ensinou teoria da evolução. 
Além dos péssimos salários, das escolas sucateadas, agora mais essa para os professores: a constante ameaça de demissão, prisão e perda dos bens por terem feito ou ensinado algo que desagradou os pais. 

Ps: Vale lembrar que o projeto permite uma brecha que foi aproveitada pelo próprio autor da PL: político pode fazer campanha política em escolas. Leia aqui a matéria.