sexta-feira, janeiro 29, 2016

O caminho da moderação


Buda dizia que devemos trilhar o caminho do meio. Epicuro dizia que a felicidade estava na busca da moderação. Uma boa refeição é prazer, mas se eu comer demais terei uma indigestão. Por outro lado, quem passa fome, morre. O ideal é comer o suficiente, com moderação.
A moderação é o caminho para a felicidade. Sair do caminho do meio é a receita de desastre, de infelicidade.
No Brasil de hoje parece cada vez menos pessoas trilham o caminho do meio, especialmente quando se trata de política. Vejo de um lado o radicalismo cego de esquerda, do outro, o radicalismo cego da direita.
De um lado gente comentando a foto de Herzog enforcado e dizendo que torturam pouco (sim, vi isso numa página de fãs do Bolsonaro). Do outro, gente do movimento negro entrando em sala de aula de uma universidade e dizendo que os alunos lhes devem até a alma.
A história já registrou momentos em que países deixaram de trilhar o caminho do meio. Itália sob o regime fascista. A Alemanha sob o regime nazista. A Rússia sob o regime stalinista. Esse foi um dos períodos mais negros da história humana.

O que é ser homem?



Confesso que fiquei tão curioso a respeito da polêmica a respeito dessa capa que, ao achá-la em um sebo, resolvi comprá-la. Para quem não sabe, o deputado Bolsonaro fez um vídeo no qual dizia que a revista era na verdade um livro que tinha como objetivo ensinar meninos a se vestirem de meninas - ou algo assim.
Primeiro: não é um livro. É uma revista. 
Segundo: nitidamente não é direcionado a crianças. A linguagem é técnica. Dificilmente uma criança que venha a pegar essa revista vai entender alguma coisa. Pudera. A revista é destinada a professores, não a alunos.
Terceiro: a publicação, ao contrário do que dá a entender Bolsonaro, não é toda dedicada ao assunto. São 8 páginas de 88, incluindo matéria sobre como ensinar MATEMÁTICA.
E o menino da capa refere-se a um caso real. Um garoto britânico que resolveu ir à escola vestido de princesa numa festa à fantasia. E a revista levanta a discussão sobre o que fazer num caso desses. Em nenhum momento da matéria é dito que se deve incentivar meninos a se vestirem de meninas, como é dito no vídeo de Bolsonaro.
Não concordei totalmente com a matéria (felizmente) e eu acrescentaria alguns entrevistados com visões menos concordantes entre si. E, pessoalmente acho de uma bobagem tremenda isso de hoje em dia usar x no lugar de o ou a nos nomes de pessoas.
Mas a matéria levanta questões interessantes, especialmente sobre a questão da definição dos gêneros e seus estereótipos, que me levaram aos seguintes questionamentos:
- Por que um homem que veste camisa rosa deixa de ser homem e um homem que bate em mulher continua sendo visto como homem?
- Por que um aluno cujo número 24 na chamada vira motivo de chacota entre os colegas, mas o que faz plágio continua sendo visto como homem?
- Por que um homem, para ser considerado homem, precisa gostar de futebol?
- Por que um indivíduo que não honra com sua palavra continua sendo visto como homem, mas um indivíduo que cozinha ou costura é visto como menos homem?

- Por que um homem que abandona sua mulher grávida de um bebê com microcefalia continua sendo homem, mas um garoto que prefere vôlei ao futebol deixa de ser homem?
- Por que o garoto que bate no outro porque ele tirou uma nota alta na prova é considerado machão e o garoto que apanha é considerado mariquinha não só porque não foi capaz de revidar, mas também porque tirar nota alta na prova "é coisa de menina"?
São questões, sem dúvida, interessantes.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

O patrulhamento ideológico dos Bolsonarinhos


Quem me conhece, sabe que sou um adepto da teoria da evolução. Muito pela influência de Monteiro Lobato, que era um evolucionista tão radical que chegou a ser chamado de comunista por um padre. Muito pela cibernética, um dos paradigmas mais usados por mim em estudos da comunicação. 
Quando vi essa camisa, em Buenos Aires, gamei. Bem-humorada, fazia referência não só à teoria da evolução, como era uma nítida referência ao filme Planeta dos Macacos. E fazia uma muito bem sacada sátira da famosa camisa de Chê Guevara.
Hoje, na fisioterapia, um senhor me contestou:
- Por que você está usando essa camiseta? Você acha que isso é evolução?
- A teoria da evolução é! - afirmei, convicto.
- Mas e esse Chê Guevara aí?
- Não é o Chê Guevara! É um macaco! É uma piada!
- Humpf! - fez ele, e foi embora.
Sério, estou ficando cada vez mais assustado com os rumos do Brasil.

Ps: Já sei que essa é uma camisa que vou deixar de usar caso Bolsonaro chegue ao poder. 

segunda-feira, janeiro 18, 2016

O gato budista


Leandro karnall diz que o gato é budista. Ele conta que quando Buda morreu, todos os animais fizeram uma fila para homenageá-lo e conseguir a iluminação e o único que não compareceu foi o gato. Ao ouvir o cachorro criticar o gato, Buda teria dito: "O gato foi o único que entendeu o budismo".
Há uma máxima segundo a qual, se você encontrar Buda, deve matar Buda. Isso porque Buda não está lá fora. O Buda está dentro de cada um. Nos templos zen não se faz reverência para o buda de madeira, para a imagem, mas para o buda que está dentro de todas as outras pessoas que estão meditando. Cada um é responsável por sua própria iluminação.
O cachorro deve ser disciplinado, o gato é auto-disciplinado. O cachorro deve seguir a um líder, um dono, que lhe diz o que fazer e como fazer. O gato só segue a si mesmo. O gato não precisa que alguém lhe diga para tomar banho: ele mesmo se limpa. O gato não precisa que alguém lhe diga onde fazer suas necessidades. Se há local adequado, ele fará lá, e cobrirá depois.
Há uma velha história sobre um mestre equilibrista que ensinava um discípulo. Em um dos números, o discípulo equilibrava-se sobre uma corda e o mestre equilibrava sobre a cabeça dele. E o discípulo disse: "Cuide de mim e eu cuido de você" ao que o mestre replicou: "Não, cuide de você eu cuido de mim, assim estaremos cuidando dos dois!". De fato, se o discípulo cuidasse de si, se perdesse o equilíbrio, o mestre cairia com o ele.
Da mesma forma, no budismo se diz que você deve mudar. Sua transformação irá refletir no mundo. O gato concordaria com isso.

sexta-feira, janeiro 15, 2016

MEC desmente vídeo de Bolsonaro sobre livro de educação sexual

O Ministério da Educação (MEC) desmentiu, em nota, informações divulgadas pelo deputado federal Jair Messias Bolsonaro em seu Facebook pessoal no domingo (10). Em um vídeo, o deputado critica o currículo escolar das escolas públicas, que inclui informações sobre homossexualismo e educação sexual. O deputado se refere, especificamente, ao livro  “Aparelho Sexual e Cia”, que, segundo ele, “estimula precocemente as crianças a se interessarem por sexo”.
De acordo com o MEC, o ministério não produziu, adquiriu ou distribuiu o livro e não há qualquer vinculação entre o ministério e o a obra, que não consta dos programas de distribuição de materiais didáticos levados a cabo pela pasta. Leia mais
Fica ao dica: divulgar mentiras de um mentiroso não faz de você um herói. Só faz de você um mentiroso. 



domingo, janeiro 10, 2016

A mentira como estratégia



O texto abaixo é uma refutação, ponto a ponto de todas as mentiras de um vídeo postado no Youtube pela senhora Damares Alves, assessora parlamentar do senador Arolde de Oliveira. 
Essa senhora, Damares Alves e a quem ela serve, o senador Arolde de Oliveira, querem acabar com campanhas de prevenção à AIDS no Brasil. A estratégia é simples: posso pedir a proibição de qualquer coisa se disser que está sendo distribuído para crianças. Uma cartilha para homens de 40 anos (com linguagem e personagens de 40 anos)? Digo que está sendo distribuída para crianças de 5 anos e peço sua proibição. 
Distribuição de camisinhas em postos de saúde e escolas de ENSINO MÉDIO? Digo que está sendo distribuído para crianças e que crianças de cinco anos são obrigadas a usar. Peço a proibição. Assim conseguem a africanização do Brasil. 
O aumento dos casos de AIDS na África é avassalador no rastro da falta de informação (a maioria não sabe nem mesmo como se prevenir). E, em conjunto, na África cresce como nunca o número de igrejas evangélicas, que dizem que a AIDS é um castigo de Deus. E tudo isso é feito por pessoas pagas com dinheiro público.

Vale lembrar esta notícia do homem que processou a Igreja Universal que havia lhe garantido que o curaria da AIDS. 

Abaixo o texto de Magali Cunha explicando uma a uma cada das mentiras do vídeo: 


Assessora da Frente Parlamentar Evangélica ataca governo federal em palestra e fornece argumentos para reações das igrejas a políticas públicas

Por Magali do Nascimento Cunha (1)



Um vídeo postado no Youtube e amplamente disseminado nas redes sociais e em sites e blogs evangélicos mostra uma palestra de Damares Alves, realizada na Primeira Igreja Batista de Campo Grande (MS), na noite de 13 de abril, com o tema "O Cristão diante de Novos Desafios"

Damares Alves é apresentada como pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular, com intensa atuação política: é assessora do senador Magno Malta, assessora jurídica da Frente Parlamentar Evangélica e da Frente Parlamentar da Família e Apoio a Vida e diretora de assuntos Parlamentares recém-criada Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE). Ela também atua como secretária nacional do Movimento Brasil Sem Aborto.
Damares Alves constrói o seu discurso com base em extratos de materiais veiculados em período recente - cartilhas, produzidas fundamentalmente pelos Ministérios da Saúde e da Educação; livros produzidos para crianças e adolescentes; e outros produtos impressos - para criticar o que classifica como a disseminação de uma apologia ao sexo e às drogas entre crianças e adolescentes, em especial nas escolas, coordenada pelo governo federal. É enfatizada uma crítica ao governo brasileiro nos últimos dez anos como responsável por tal situação que ameaça a família brasileira. A pastora cobra uma ação mais enérgica das igrejas evangélicas contra estas autoridades que estão lá, segundo o seu discurso, "porque nós deixamos".

O clima em torno da palestra se dá também no contexto dos acontecimentos em torno daindicação do Deputado Federal do PSC Pastor Marcos Feliciano para a presidência da Comissãode Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, e toda a controvérsia de sua plataforma relacionada às questões que envolvem a sexualidade humana. Vale registrar que o culto em que Damares Alves participou foi realizado na Primeira Igreja Batista de Campo Grande (MS) onde, um dia antes (12 de abril) foi realizado um evento político: o Encontro Estadual de Lideranças Evangélicas. Segundo a revista Carta Capital, entre os 350 pastores presentes no evento havia 25 parlamentares, como a vereadora Rose Modesto (PSDB), liderança da bancada evangélica local e autora da lei que obriga o poder público a apoiar eventos evangélicos, Herculano Borges (PSC), que aprovou projeto para proibir a instalação de máquinas de preservativos nas escolas, e Alceu Bueno (PSL), opositor do reconhecimento de uma associação de travestis como de utilidade pública. O encontro foi aberto pelo presidente do Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política (Fenasp) que ali estava para formalizar a criação da Frente Parlamentar Evangélica da cidade, por isso a presença dos pastores da cidade na reunião com o objetivo de: “Alinhar os evangélicos para disseminar valores cristãos por meio de leis políticas públicas” (verhttp://midiareligiaopolitica.blogspot.com.br/2013/05/bancadas-de-deus-materia-de-capa- da.html).

São esses valores que Damares Alves declarou defender por meio do conteúdo apresentado. Ao se assistir integralmente a palestra de 1h13m, porém, percebe-se que a seleção de materiais da qual a advogada faz uso, são extratos adaptados pauta de abordagens. Os extratos são apresentados como se fossem a íntegra das cartilhas e livros e a explicação oferecida traz, além de elementos críticos genéricos e imprecisos, inverdades e manipulação explícita de dados para dar veracidade às abordagens. Damares Alves tenta apagar tais generalismos, imprecisões e manipulações com justificativas como "tenho muita coisa para mostrar, tenho que passar rápido"; certamente, ao se apresentar num culto evangélico, dificilmente haveria contraposição, tal o caráter de verdade atribuído à sua palavra.

Uma pesquisa para a produção deste texto em cada exemplo/argumento apresentado de Damares Alves demonstra claramente o que está dito acima. A pesquisa se configurou na busca de informação sobre os materiais citados em cada slide apresentado na palestra, com acesso direto à fonte e/ou em referências sobre ela, e comparação das informações coletadas com os argumentos apresentados na palestra. A reprodução das falas segue com fidelidade a forma da referida palestrante. O resultado é exposto a seguir:


Slide 1 - Denúncia sobre ação da Prefeitura de São Paulo, na gestão de Marta Suplicy, em projeto de orientação sexual na educação infantil



A advogada traz como primeiro ponto da palestra um extrato de matéria do Jornal O Estado de São Paulo, de 8 de julho de 2004, e o explica da seguinte forma: "Esta mulher (Marta Suplicy) quando era prefeita da cidade de São Paulo, irmãos, gastou dois milhões de reais com o grupo GTBOS para ensinar sobre ereção e masturbação em bebês nas escolas. (...) Por que há um grupo que começou na Holanda, na Europa e já está influenciando no Brasil, que chegou à conclusão que nós precisamos começar a aprender a masturbar os nossos bebês a partir dos sete meses de idade. (...) E esta prefeita fez isto. Lá na Holanda estão até distribuindo uma cartilha para ensinar aos pais como massagear sexualmentesuas crianças. Isto está acontecendo no Brasil".

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